sábado, 8 de março de 2008

O dia

Boa noite e bom dia,
Eu adoro esse dia,
Se faltarem nesse dia,
Esse dia não é dia.
(23-11-1998)



Esse eu escrevi aos 6 anos de idade, e se houvesse ordem cronológica, esse seria o primeiro poema que eu escrevi, embora sem consciência disso. Marco zero? Sim, foi esse.

Ele me lembra uma vida tão bela, onde os dias pareciam rastejar diante da minha felicidade, onde sentar ao chão gelado, e ao mesmo tempo se queimar pelo sol poente -e mesmo assim escaldante- das 16h horas era de uma sensação de vida inexplicável.

Me lembra que problema era apenas mais uma palavra que eu sabia falar, e que se algo poderia se assemelhar a isso era o fato de ter que comer salada no almoço. Isso sim era um problema. E que problema...

Me lembra que amor era importante sim -e já existia-, que família era importante sim, que amigos também eram importantes, mas que nenhum jamais conseguiria viver sem o outro.

Me lembra que a beleza era relativa, eu podia fechar os olhos, sorrir, e abri-los novamente, e tudo, tudo poderia estar diferente - e de fato estava-.

Me lembra que pensar era bom, e bom mesmo, era não pensar. Pensar na vida, no universo e após, exausto, estar satisfeitíssimo. Pensar, pensar e pensar. E sequer chegar a lugar algum. Tão estúpido, tão bom.

Me lembra que minha insignificância -e eu tinha consciência disso- era de tamanha significância... Ao menos eu não engava a ninguém ao parecer importante. Né isso que fazemos hoje?

Me lembra que eu não era exigente com o mundo, e por isso ele me era mais generoso. Se eu via perfeição em uma unha, imagina numa festa?

Me lembra que pessoas existem, e não se relacionar com elas é não compartilhar a felicidade. Ninguem nasce sozinho, ninguem vive sozinho. Qual a razão de ser feliz e sorrir, se não tem ninguém para vê-lo?

Me lembra também que solidão, era apenas pretexto de adulto que não tem mais sorrisos a oferecer para que haja reciprocidade.

Me lembra que eu não precisava lembrar de nada para fazer comparações. Isso mudaria alguma coisa? Feche os olhos, lembre, e assim como eu chegue a conclusão de que não se deve lembrar. A vida existe pra ser vivida. Nada mais.

O sol já vai se pôr, o dia ja vai acabar, e assim como eu bem lembro, o pôr-do-sol, a lua, o dia e o mundo, continuam os mesmos, intáctos, desde que eu tinha apenas seis anos de idade.

Vai ver eles não se preocuparam em lembrar.
Chega de nostalgia por hoje.

3 comentários:

thiê disse...

sem o amanhecer do tal dia não haveria esta linda tarde que concretiza até agora a obra tua. gosto do que leio como quem simplesmente lê e não sabe o que é mais interessante. o dia nasceu em marco zero, e que a tua noite tarde a vir, ou que venha em seu tempo certo, quem somos nós neste pequeno correr de horas para desejar algo além de uma poesia acalentadora?

xumiuchoa disse...

Cara, passo por aqui para agradecer o comentário feito no meu blog. E como o tenho há pouco tempo, queria saber como você chegou até o blog. Saudações!

xumiuchoa disse...

Mais uma vez agradeço pelo comentário. Comungo do seu ponto de vista de qualquer comunidade pode apresentar características contraditórias se postas em causa por alguém de outra origem. Porém, não penso que aquele texto era espaço para falar sobre isso.
Como você pôde perceber, postei no blog recentemente três textos sobre o Marrocos, abordando diferentes aspectos: futebol, nômades do Saara e as contradições dos muçulmanos. Ou seja, o texto estava focado no Marrocos e nas contradições daquela gente, como fica claro desde o título.
Em nenhum momento afirmo que as contradições são exclusivas dos marroquinos ou dos muçulmanos. O texto sim, recai sobre elas, até porque abranger mais do que isso pede uma tese, não somente 4000 caracteres.
Passarei sempre por aqui, espero que continue dando uma olhada no mameluco. É sempre saudável trocar idéias. E quem foi a amiga que indicou o balaio de gato lá?
Abraço